autoconhecimento sem fronteiras

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Contos, crônicas e produções textuais sobre amor, a vida e amizade.

Eu não sei perder

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Era uma noite de date e nós estávamos brincando de adivinhar artistas pela filmografia ou algo assim. Por uma questão puramente cultural, ele sabia mais do que eu. Começou a fazer piada das vezes que eu perdia e eu comecei a perceber um incômodo muito grande crescer dentro de mim. Fechei a cara, me senti ridícula, não consegui combater o que estava sentindo, mas ao mesmo tempo estava com muita raiva. Identifiquei a Monica Geller (Friends) e a Claire Dunphy (Modern Family) dentro de mim, mas só achei graça da situação dias depois.

Pedi desculpas pelo exagero, ri disso em terapia, entendi que perco mal, que é herança de família e que eu sempre evito situações de competição porque me cobro demais e não vou saber lidar com a frustração de errar — menos ainda de perder por ter errado. Entendo a proporção disso em um contexto de brincadeira, mas decidi que não vou fazer nada a respeito, além do que já faço (evitar me expor a essas situações sempre que puder).

Não tem nada a ver com falta de autoconhecimento, má vontade em melhorar como ser humano ou preguiça de enfrentar o processo. Tem a ver com o fato de que a vida é curta e que já tenho coisas suficientes para lidar. Inclusive essa mesma autocobrança em outros contextos, em situações mais sérias e decisivas na minha vida. É somente uma questão de priorizar o que faz sentido ser trabalhado nesta vida. Senão tudo vira urgente, tudo vira problema e nada mais é feito.

Sou muito a favor da ideia de viver para ser do que se matar de fazer. Então, vou ficar devendo essa. Vou catalogar “eu não sei perder” como parte do meu charme e tocar esse barco. Vou ter que aceitar que não dá para ganhar sempre e abraçar esse “defeito”, porque não vai dar para ser perfeita enquanto eu for humana. E alguns defeitos fazem parte da nossa personalidade. É como a gente se (re)conhece e se identifica com outras pessoas — ou com alguns personagens, no meu caso.

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Cama sem cabeceira

Passei muitos anos morando na casa dos meus pais, dormindo em uma cama que era par de uma beliche. A estrutura era de ferro e o estrado era de madeira. Depois de muitos anos, aquela cama começou a ficar muito barulhenta. Era insuportável dormir nela porque qualquer mínimo movimento que eu fizesse à noite me acordava por causa do barulho da cama.

Quando eu estava perto de me mudar, ganhei uma cama nova, mais alta, mais firme, com um baú onde eu cabia (mas que usei para guardar as minhas coisas) e sem cabeceira. A ausência de cabeceira me pegou desprevenida, porque eu fazia muitas coisas da minha cama, recostada na cabeceira, de perninhas cruzadas e com paz de espírito. Mas precisei me adaptar à essa nova configuração.

Como não consigo ver nada como apenas a coisa em si, comecei a fazer diversas conexões sobre a falta de cabeceira da minha nova cama e a vida. Depois de muitos anos lidando com o incômodo de uma cama desconfortável (com a qual eu já estava mais do que acostumada) e barulhenta, foi finalmente perto do momento de ter que deixar de me apoiar nos meus pais que eu também perdi o apoio da cama.

Sei lá, na minha cabeça isso equivale a tirar as rodinhas da bicicleta para aprender a se equilibrar. Foi (e tem sido) estranho, mas menos conflituoso do que eu achei que seria. E como uma boa parte das coisas que eu decidi fazer na minha vida, eu me abri para a possibilidade de me sentir desconfortável antes de me adaptar. Faz parte de tudo o que é novo e diferente. Mas se a gente entende que é o melhor, a coisa lógica a ser feita é se jogar.

Já faz mais de seis meses que eu tive a ideia de escrever este texto e eu continuo pensando da mesma forma. A vida dá medo e não dá muitas garantias. O risco é assustador, mas é a única forma da gente ter certeza se alguma coisa vale a pena. O frio na barriga nunca passa, as inseguranças sempre gritam no ouvido, mas se você sabe exatamente o que deseja e confia que tem o que é preciso, você vai encontrar o seu caminho, o seu equilíbrio. Mesmo que sua bicicleta não tenha mais as rodinhas ou que sua cama não tenha mais uma cabeceira.

“If you desire to do something, there is a part of you deep down that knows you’re capable or else you wouldn’t waste your time thinking about it.”

Jen Sincero

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As coisas vão te afetar de todo o jeito

Era uma tarde quente de verão e eu sei o quanto este começo soa básico, mas realmente era uma tarde quente de verão. A casa estava iluminada pela luz natural que entrava pelas janelas e o vento (artificial) balançava as cortinas enquanto o som da TV, em algum programa aleatório, criava uma trilha sonora destoante do que eu estava sentindo.

Eu nunca realmente tentei colocar em palavras porque achei bonito demais e quis guardar em algum lugar dentro de mim — e só para mim. Mas me peguei lembrando daquele dia e do que eu senti e decidi que já era hora de deixar de silenciar a minha voz numa tentativa inútil de me proteger de viver.

O que eu senti naquele dia foi justamente o oposto de me proteger de viver. Aquilo foi entender que não tem como escapar da vida estando aqui. Ela vai acontecer de qualquer maneira. As coisas vão te afetar de todo o jeito. E a você cabe apenas a decisão de tentar, em vão, se proteger de tudo ou ir em busca de coisas pelas quais você pode se machucar, mas que valerão a pena.

Então, naquela tarde quente de verão, em que a casa estava iluminada e as cortinas dançavam ao som da vinheta de um programa aleatório de fofoca (provavelmente não era isso, mas quem se importa?), você trocava a letra de uma música superconhecida para fazer piada de alguma mania minha que você tinha acabado de aprender, enquanto eu via tudo quase em câmera lenta.

Respirei fundo tentando dar conta da compreensão que tinha acabado de me atingir. Em cheio. Senti saudades daquele exato momento enquanto ele ainda acontecia. Olhei para nós como quem percebe de fora e quis, de alguma maneira, eternizar o momento — fotografar, tatuar, escrever uma música. Mas só consegui olhar para tudo com o máximo de atenção que eu pudesse porque não queria me distrair.

Pensei em tudo o que ainda está por vir e percebi que a gente nunca mais seria as mesmas duas pessoas daquela tarde. Pensei na vida que muda, na efemeridade das coisas, na ilusão de que a gente tem todo o tempo do mundo e fiquei triste por um pequeno segundo pensando que eu queria poder segurar aquele momento, impedir o tempo de passar e viver ali para sempre.

Quase imediatamente a minha tristeza foi interrompida pela leveza da sua presença sempre tão iluminada e alegre. E fui, mais uma vez, inundada por diversas impressões ao mesmo tempo. Sim, aquele momento não duraria para sempre. Nós mudaríamos, a vida mudaria, o tempo passaria e nada nunca mais seria daquela forma outra vez. Mas te ver cantarolando um refrão famoso e parodiado me fez abraçar a brevidade do momento e me emocionar com a possibilidade de viver tudo o que fica, vai e volta com você.

O medo de nunca mais sermos o que somos, naquele momento, se transformou em entusiasmo, em ânimo para conhecer todas as nossas futuras fases e versões. Eu senti uma gratidão profunda por poder sentir tantas coisas bonitas e assustadoras ao mesmo tempo. Eu compreendi que, o que quer que viesse de normal, entorpecido ou doloroso depois daquela tarde, valeria a pena.

Ter o meu coração partido pela vida depois daquele dia, para mim, significaria ter vivido o suficiente para chamar um mínimo pedaço da brevidade desta minha existência de “felizes para sempre”. E isto segue em mim desde então. 🖤

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